A ilusão da vitória e a falha do sistema
Essa semana, o Rio de Janeiro comemorou três grandes vitórias. A filha de Piruinha, presa em Ipanema. Dois tocheiros do século XVIII, recuperados para a Igreja de Santa Luzia. E uma peça pré-colombiana, apreendida em um apartamento no Leblon. São três operações bem-sucedidas. Mas o que elas realmente nos contam sobre o nosso Estado?
O padrão que ninguém quer enxergar
Quando olhamos de perto, essas vitórias revelam um padrão preocupante. Em cada caso, o Estado tinha todas as informações para agir antes. A sucessão do clã Escafura, documentada. Os tocheiros de Santa Luzia, parte de um acervo tombado. A peça pré-colombiana, comprada em leilão público seis anos antes. Os dados estavam lá. Mas o Estado não tinha uma arquitetura para usá-los.
A reatividade não é solução
O que aconteceu, então? Em todos os três casos, a ação só ocorreu depois que alguém de fora – uma denúncia ao GAECO, à PF, ao Iphan – fechou manualmente a lacuna que o sistema deveria ter fechado automaticamente. Isso não é um Estado que age proativamente. É um Estado que reage a estímulos externos. E essa reatividade é o seu modo de operação padrão.
O verdadeiro custo da ineficiência
A armadilha é pensar que o sistema funciona porque as operações dão certo. Mas o custo real está no intervalo. Nos meses em que Monalliza Escafura operou impune. Nos anos em que os tocheiros serviram de abajur. Nos seis anos em que a peça pré-colombiana ficou guardada no Leblon. Cada operação bem-sucedida deveria ser um alerta de falha sistêmica anterior, não uma celebração isolada.
A ausência de memória institucional
O problema não é falta de competência. Os órgãos que atuaram são competentes. O problema é que o Estado não aprende entre operações. Ele não foi projetado para acumular inteligência. As bases de dados existem, mas estão em silos. O inventário de bens tombados não conversa com registros de movimentação. O histórico de investigações criminais não alimenta monitoramento automático. Cada investigação começa do zero porque falta memória institucional integrada.
O que é inteligência institucional de verdade
Não precisamos de tecnologia cara ou reforma constitucional complexa. Precisamos de decisão de gestão. Primeiro: cruzamento obrigatório de bases entre PF, MPRJ, Iphan, secretarias estaduais de cultura e segurança, e cartórios. Segundo: monitoramento contínuo de ativos de risco conhecido. Terceiro: métricas de desempenho que valorizem a detecção proativa, e não apenas a reatividade.
O espaço político para um novo Rio
Existe um espaço político para quem apresentar propostas concretas de um Estado que funciona. A retórica anti-polarização é importante, mas vazia sem conteúdo institucional. O eleitor do Rio quer um Estado que aprenda, que funcione antes que o problema se instale. Em 2026, a disputa será entre quem tem uma proposta de Estado que aprende e quem tem apenas discurso sobre o que deveria ter sido feito.